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Blig Amigos

Meu passado

19/09/2003 18:20
Todo dia eu passo ali por aquela avenida e o letreiro apela para que eu o leia:
"Aulas de Caligrafia". Está lá, bem legível. Letras grandes. Hmmm... Aulas de etiqueta para letras deselegantes?

Letras encavaladas como os dentes do menino... Bota um aparelho. Alinha isto! Caligrafia. Ajeita esta letra! Ande na linha! Ordenação. Coordenação Motora. Caderno horizontal encapado com plástico xadrez. Sinal de trabalho repetitivo. Movimentos mecânicos. Lembrança de tempos diversos...

Fico imaginando as aulas por detrás do letreiro. O objetivo do curso não deve ser escrever letras, mas, aprender maneiras de desenhá-las...Letras rococós como as dos convites de casamento e de formatura. O que escrevem? Aparência ou conteúdo? Hmmm não existe palavra que seja só aparência, toda palavra é conteúdo. É? Que sei eu?

Formatos de letras no computador. Times que é só espaço sem tempo. Lucida Console. Ilúcida e sem consolo. Arial, Batang, Century, Coronet...ABC...digitalizado... E a letra Luciana Araujo, que escrevo à tinta, com lápis número 2, com grafite 05, nanquim. A aparência da minha letra...

A mocinha inscreve-se num concurso de poesia entre várias escolas. Cópias datilografadas são enviadas aos membros do júri. Vitória. A escola inteira quer ler... “Ah, claro! Eu tenho uma versão à mão, aqui”...(ao alcance) e escrita à mão (de próprio punho)... Papel almaço.

O leitor pegava o papel e se perdia no que estava escrito...E a poesia lida daquele jeito estranho, de quem se esforça para entender, perde todo o sentido... Penso. Só deixo alguém ler poesia minha escrita com minha letra se for para expressar tensão e estranhamento... Hhahaha... Lembro da professora Samia dizendo, “menina, parabéns, isto é lindo, mas sua letra”...Hahaha..

Em outros tempos eu preenchi cadernos e cadernos de caligrafia. Quiseram domar minha letra e aprisioná-la naquelas linhas peculiares... A letra não pode passar da linha estreita, a não ser que seja um P, um T, um Q qualquer... daí precisa esticar até a linha de cima ou a debaixo... Esticar-se até limites pré-estabelecidos, como o parágrafo do primário, em que o espaço é exatamente da largura do nosso dedo indicador. Ditado. Parágrafo. Letra maiúscula...Linha que se segue... Perseguida que não se alinha.

Letra diferente demais. Sabe que nunca vi uma letra parecida com a minha. Às vezes a gente abre o caderno de alguém e vem a memória a letra de outro. Isso não acontece comigo... A minha letra é uma esquisitice singular... Tem lá uma beleza exótica, no meu modo de ver, porque tem gente que gosta e outras que a acham medonha... Não há consenso... Ela abriga o Que sei eu? Um alfabeto que se pergunta: A, que sei a? B, que sabe B?

Minha caligrafia é um bicho. É bicho tipo gato. Ou você gosta ou odeia. Um animal que agora, longe das convenções do caderno de caligrafia, é livre no papel. Sobe telhados com uma perna estranha do P e tumultua. Cio. Uma fêmea fértil, que nem sempre dá a luz para o leitor... Pontos

Minha letra é um ato impulsivo. Animal. É aquilo escrito ali e naquele momento da anotação, sem consciência do passado ou do futuro. Sentidos. Mas é também racional. Homem. É aquilo que também registra espaços e tempos ausentes, coisa que bicho não faz. Capacidade de pensamento. Ausências que não explicito e que fica ilegível, mesmo aqui, na tela do computador.
enviada por Tila






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