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Blig Amigos

Meu passado

04/09/2003 14:43
Sensação de cansaço, acordei há pouco. Exausta. No terraço, nua diante do sol e do céu laranja cheio de nuvens roxas. As minhas costas mofadas, uma rica e intrincada colônia de liquens proliferou sob as minhas asas e em cantos escondidos atrás dos meus braços, protegida do sol e da chuva durante o tempo que passei dormindo. Havia também uma delicada rede de teias de aranha, partiu-se e enrolou-se sob meus pés e no meu rabo pontudo quando finalmente levantei-me e movi as pernas. O ar é quase sólido. É a umidade, acho que vai chover de novo. Tu ainda não chegaste e eu sei que não vais voltar. Eu não tenho amigos. Sou uma gárgula.

Coloquei um casaco de lã preta sobre minha pele de pedra suja, um casaco que aperta minhas asas, e agora brinco com o cãozinho. Quando desci a escada de madeira apodrecida notei que ele ainda estava aqui. Ainda não foi embora. Mais cedo ou mais tarde ele vai fugir. Veio cheirando e cheirando como se eu fosse um muro de mármore, um pedaço das paredes da casa. Ele se assustou, foi quando me movi. O que será que ele pensa sobre mim? Ele balança o rabo como se me reconhecesse, pula nas minhas pernas. Mas é impossível, eu não tenho cheiro. Eu não sou uma pessoa.

É o casaco, noto de repente. O casaco ainda tem o teu cheiro. Será que por causa disso ele pensa que está diante de ti?

Tomo um banho demorado, esfrego imitações de músculos e mato toda a vida que havia se formado nas minhas costas. Sinto um pouco de pena, eu acho. Não sei. É uma coisa ruim. Por que eu despertei? Por que não permaneci lá em cima, morta e olhando pro nada? Por que abandonei a pedra? Tu me deixaste assim. Eu sou diferente agora. Tu fizeste isso comigo. Tem coisas dentro de mim.

Não posso voltar, não posso continuar parada e encolhida no teto, olhando para baixo. A pedra me estranha, rejeita, não faço mais parte dela. Quando tento voltar, ela luta comigo e me empurra, me expulsa. Sentimentos e coisas rápidas e fortes, coisas que gritam alto estão dentro de mim, preenchendo minhas paredes. Machucando por dentro. Não combino mais com a rocha calma e silenciosa. Tu fizeste isso comigo, agora a pedra não me ama mais. Tu me deixaste assim, e hoje eu sou de carne.

A minha música. O som é o vento e é a chuva que começou forte. Somos velhas conhecidas, a chuva e eu. E a noite também é uma das nossas, quase posso dizer que somos íntimas. Quantos anos passamos juntas, lá no terraço? Elas se lembram. Quantos pequenos insetos vieram com suas larvas para buscar abrigo sob minhas asas?

O nosso cachorro me observa tomar banho, ele ainda não foi embora. Mas tenho certeza de que irá, mais cedo ou mais tarde.

“Por que tanta fidelidade?” eu pergunto. Ele deita no chão, olhando para cima, as orelhas baixas. Talvez ele goste de mim. “Para que tanta fidelidade? Olha o quanto isso te custou,” uma hora os olhos dele respondem. Eu era boa nisso. Em entender as coisas que não falam. Talvez fosse também convencida e um pouco falsa, quem sabe?

Mas agora o que eu sou? Mulher ou pedra?

Saio do banho, foram muitos minutos de pura tristeza. Não passo creme pelo meu corpo. Sem cheiro, eu sou só um pedaço de pedra, uma estátua, e eu odeio o cheiro do teu perfume.

Penteio meu cabelo, ponho a franja sobre os chifres pequenos no topo da testa e agora o cãozinho já está sentado olhando para a porta aberta da rua. Ele ainda não foi embora, mas não vai demorar. Ponho calças compridas, cobrem minhas coxas até a altura do rabo. São calças brancas como asas de anjo, mas eu não tenho asas de anjo.

Vou para o quarto, me deito. Sem luzes, escureceu. Os relâmpagos começaram e a chuva ficou mais forte. O cãozinho veio correndo assustado, entrou embaixo da cama. Eu não respiro, só fazia isso quando estavas por perto, porque te deixava mais confortável. Vou dormir. Estou exausta. Mas não preciso dormir e não consigo dormir.

Sinto o peso na cama, depois de várias tentativas o cãozinho finalmente conseguiu subir. Ele dorme nos meus pés. E é só.

Não choro. Nem faço nada, porque é isso o que as gárgulas costumam fazer.

Tu não estás aqui. Não há sexo, nem vida, nem prazer, nem calor. Só frio. Mas eu não sinto frio. Às vezes o cãozinho treme.

Sem bico do seio, sem boca e saliva, sem coisas molhadas. Sem conversas e boas sacanagens. E o meu coração não bate.

Muitas horas passam e a chuva enfraquece. Permaneço na mesma posição, ainda sem respirar. Eu estou morta, eu acho. Pessoas mortas sentem dor? A música do vento ainda toca.

Tu falavas bobagens, tolices que me deixavam fascinada e eu parecia viva. Mas acho que sempre estive morta. Lembro da TV e de como tu passavas horas olhando para ela, eu não conseguia compreender. Mas também não compreendias a necessidade que eu tinha de voltar para a pedra de tempos em tempos. Eu podia passar semanas lá em cima, parada. Podia passar longos anos, se não me interrompesses. Agora não posso mais. Dez anos, eu pensei. Já estarias velho. Um ano, no mínimo. Um ano é o mesmo que nada. Mas não. Não sei o que sou agora. Sei que fizeste algo comigo, eu já disse isso. Mas o que foi que fizeste? No que me tornaste? Tens idéia do quanto tiraste de mim? Do quanto me fizeste perder?

Por que estou deitada aqui? Levanto e vou para frente da janela. A lua olha para mim e ri, diz coisas que não compreendo mais. Depois ela vai embora. A chuva também, a noite também.

Amanhece. O cãozinho continua comigo, me segue por toda parte. Ele não foi embora.

Então eu saio e eu vou te seguir. E vou te vigiar, como uma amante traída, ciumenta e sem nenhum orgulho próprio. Mentira, eu não sinto ciúmes. E eu te vejo, lá de cima, do topo das casas, dos telhados. Mas não deixo que percebas. Sou silenciosa, ninguém jamais notará. Não vou falar contigo, não vais me ver nunca mais. Se ao menos eu tivesse uma alma, poderia oferece-la para ti. Mas não há o que fazer, não há o que dizer e não tenho nada para te dar.

Te sigo fielmente, todos os dias. Feito uma cadela, como o cãozinho.

Estou exausta.

Minhas asas são pequenas demais para voar mesmo. Acho que essas coisas só servem para planar.

enviada por Tila






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