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09/09/2003 17:41
Nunca me senti atraída por colônias e fórmulas aromáticas muito concentradas. Sempre preferi o cheiro de banho tomado - aquele que, mesmo misturado aos sabonetes, ainda deixa um leve toque do odor natural da pele. Devo ter levado uns vinte anos para me decidir quanto ao cheiro que eu queria ter. A escolha de um perfume não é uma tarefa nada fácil para uma mulher, principalmente para as imaturas.
Lembro, por exemplo, de ter amaldiçoado o cheiro coletivo do Giovanna Baby durante toda a adolescência. Não porque não gostasse dele, mas porque era uma boa forma de ser do contra. Toda, absolutamente toda menina que menstruou ao som de "Não se reprima", exalava o perfume da mãe da Mariana Kupfer. O que aliás, diga-se de passagem, foi uma jogada de mestra da mãe da moça.
Dona Giovanna, lá pelos anos oitenta, abriu uma loja na rua Augusta para vender o perfume. Como a loja era muito grande para uma fragrância só, ela decidiu vender um monte de coisinhas fofas. Um monte de coisas fofas com o mesmo cheiro do perfume Giovanna Baby. Era uma loja encantadora, mas ela queria mais do que uma loja bonita. Sabem o que a dona Giovanna fez? Contratou meia dúzia de belas garotas e deu para cada uma delas, uma concha de cozinha e um balde cheio do liquido do perfume. No momento seguinte, as moças subiam e desciam a Augusta espalhando conchadas daquela composição odorífera pelas calçadas. Todo mundo que passava por lá acabava por seguir o rastro da fragrância. Quer dizer, todos não, as mulheres seguiam o aroma e os homens as pernas das bonitonas. Mas no final, todos paravam na porta da loja da dona Giovanna.
Foi assim que, durante aqueles anos, o perfume Giovanna Baby se tornou mais popular do que a água com flúor da Sabesp. Era uma febre - o melhor presente de amigo secreto, debutante ou dia dos namorados. Uma amiga da oitava série, na sua festa de quinze anos, ganhou simplesmente vinte e dois frascos do perfume. Juro! Não trocou e não deu nem unzinho! Ficou com todos. Ela ignorou o prazo de validade e terminou sua cota no começo dos anos noventa. Nem reação alérgica, depois de expirada a validade, ela teve! A pele deve ter curtido porque, hoje em dia, ela pode usar até Axe, que exala Giovanna Baby.
Mas eu, eu não usava, não. Maldisse a embalagem rosada por quase uma década. Queria ser diferente, não queria ter o mesmo cheiro que toda aquela mulherada. Paranóica que sempre fui, achava que usá-lo me tiraria a exclusividade da lembrança oftativa. Eu posso esquecer muitos detalhes, mas raramente esqueço o cheiro de alguém. Agora, imaginem! Se todas as meninas cheiravam a mesma essência, qual de nós seria lembrada por ela? Eu, que nunca fui besta, não arriscaria despertar a saudade alheia. Mantive meu discurso de que meus perfumes tinham personalidade e acrescentei uma boa dose de despautérios para denegrir a fórmula mágica da dona Giovanna. Tudo em vão! Os meninos adoravam as meninas perfumadas à la Giovanna Baby. Eu resisti! Resisti bravamente, até que ele saísse de moda e a maior parte de nós esquecesse a sua existência. Porém, como tudo que desdenhamos volta, nos encontramos novamente.
Eu revirava as prateleiras de uma drogaria quando achei, bem no fundo de uma delas, escondida e encardida, uma caixa do perfume. Grudei no frasco! Surpresa com a minha própria reação, pronunciei seu nome em voz alta como se tivesse reencontrado uma velha amiga. O atendente me disse que era o último. Olhei para a etiqueta e apertei a caixa contra o peito.
Eu não acredito que vou comprar esse cheirinho de bebê enjoativo que eu deixei de usar a vida inteira!
Andei de um lado para o outro à procura de cremes e shampoos que me desviassem a atenção, mas não agüentei. Quinze anos depois, algumas formas de rebeldia não surtem mais efeito. Não que não tenha sido importante bancar a original, mas, com o tempo, é impossível não rir desse jeito estranho e adolescente de crescer. A moça do caixa olhou a cena como se soubesse exatamente o que se passava pela minha cabeça e falou:
- Leva! Mesmo que não vá usar.
A frase certamente soaria insana para alguém do sexo masculino ou para alguém que não tivesse a minha idade. Quem, atestado de sua normalidade, compraria um perfume pra não usar? Mas eu a compreendi.
Voltando para casa, me sentia como se tivesse comprado um cartucho do River Raid ou do Pac Man para o Atari. Naquele momento, o Giovanna Baby não era mais o cheiro de uma ou outra garota mimada. Depois de tantos anos, ele tornou-se o cheiro da minha geração. E pouco importava o que eu dizia na época. A gente passa a vida dizendo bobagens pra parecer bacana. Não me importo mais de pagar a língua ou voltar atrás.
Agora meu frasco de Giovanna Baby fica lá no meu banheiro. Intacto, numa prateleira que fica de frente pra mim toda vez que eu sento para fazer xixi. Antes, nessas horas, eu lia revistas... agora, eu penso sobre a vida.
enviada por Tila
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